UM HOMEM CHAMADO ELEOTÉRIO

Faltava coragem, mas para Eleotério faltava mesmo era oportunidade!
A vizinhança já não escondia o despeito pelo moribundo. Não é por menos, ele havia gasto toda a fortuna deixada pelos pais, mortos em um acidente enquanto viajavam pelo mundo.
Haviam se passado quatro anos, desde que ele perdeu seus pais. Era filho único! Desde o primeiro dia, não suportando a perda repentina, passou a beber. Tornou-se especialista em importar os uísques mais caros, só pra ter o prazer de não cair na monotonia. De alguma forma, precisava manter-se ocupado.
Ele só tinha 17 anos quando seus pais morreram. Saiu vivo por um triz do acidente, quebrando uma clavícula, ambos os braços e os dentes por inteiro.
Quando percebeu que estava ficando pobre, já era tarde. Em sua porta batia o oficial de justiça com ordem para levar os veículos.
Ao atender a campainha, alguns meses depois, escuta: “Busca e apreensão.” Já não adiantava se desesperar. O que sobrou foi a casa e os móveis; continuaria a morar na mansão ou numa pensão?
O oficial disse que levariam somente os móveis. Tentou aconselhar o rapaz, mas ao ver o desinteresse, virou-se e foi embora. Mas não sem antes deixar a mansão vazia.
Eleotério não queria ser incomodado. As contas do cartão de crédito se acumulavam na caixinha do correio. A luz havia sido cortada. A água da piscina já não era mais trocada. Estava sempre verde de suja!
Já não dava mais para importar uísques caros. Os cartões de crédito estavam em descrédito na praça. Foi um passo para sair da prisão domiciliar. Tudo o que antes fazia era pela internet, telefone, celular…
Agora, tomar o rumo das ruas era um desafio e tanto. Evitava olhar nos olhos. Incomodava a todos com o seu jeito cerrado.
Os vizinhos não dispensavam críticas: “Vejam aquele vagabundo, desmiolado!”.
A dependência ao álcool o levava da casa ao boteco, que ficava a algumas quadras de distância. Não conversava, só pedia a bebida e pensava!
Eleotério despertava curiosidades. A história da tragédia dos seus pais era conhecida por todos da redondeza, desde os vizinhos ricos, até os vizinhos mais pobres da quadra do boteco do seu Pedro Maneco.
Em casa, nunca recebia visitas. E quando recebia era o oficial, ocupado em fazer as justiças.
Eleotério não pensava que um dia poderia ser expulso de sua própria casa. Mas pra ele isso já não importava, pois havia perdido as pessoas que mais amava.