SE CORRER O BICHO PEGA; SE FICAR O BICHO COME

O infeliz vinha saindo pelas matas, enquanto saíamos da canoa após uns 30 minutos a remo nas águas, pretas como Coca-Cola, do rio Negro. Éramos dois machos a bordo de uma embarcação monóxila que não aguentava mais um (…) do tamanho de jurupari-tapuia. Era o primeiro índio untuoso, de bigode e costeleta que eu conhecera na Amazônia.
Desde que tapuia disse entre os mercadores e bêbados de Manaus que tinha vindo das margens do rio Içana, passaram a chamá-lo de o único descendente vivo dos índios juruparis tapuias. Desconfiava-se de que nem índio ele era, mas orgulhava-se de cruzar o rio Negro todas as noites, sabe-se Deus pra onde, retornando somente pela manhã ao roadway em Manaus.
Amarramos a piroga entre uns arbustos e corremos pra pegar o tracajá antes que ele sumisse pelas matas.
— “É carne da boa seu Antenor.” – disse Tapuia pegando-o. De posse de um facão, Tapuia cortou o pescoço do bicho e batendo na faca com uma pedra cortava o casco do quelônio.
— “Prepare o fogo seu Antenor, que hoje a boia é fresca”.
— “Supimpa!” – eu disse-lhe abanando o fogo com um galho de folhas verdes.
Enquanto assávamos o bicho no próprio casco, com um punhado de sal que Tapuia trazia consigo, ouvimos um estampido, como um pulo de cima de uma árvore.
Tapuia sussurrou baixinho: — “não corre que o bicho pega!”. Avisto, sem sentir as pernas, jurupari-tapuia caindo sem um lado da face, arrancada, ainda de pé, pela onça pintada.
Deito-me ao chão e espero minha hora. Como um formigueiro pisado pelos pés de um brutamonte, meus pensamentos agitam-se, como um boi que sabe que foi enviado para o matadouro.
Vejo aquela cena de filme de terror e tento sair arrastando-me para a canoa. A onça aparentemente não me vê, e saio remando para longe. Após alguns poucos metros de distância, a pintada, vira-se e olha-me como um gato de rua que mia ao redor das casas do Educandos, em Manaus, em busca de uma guelra de um simples jaraqui pra saciar a fome. A pintada dá meia volta e embrenha-se mata adentro!
Espero alguns minutos para ter certeza que ela não voltaria. Retorno à beira e pego o casco da tartaruga, que já cheirava longe, fazendo o sinal da cruz em direção ao índio morto.
Parto, deliciando-me com a tartaruga da Amazônia e lamento o ocorrido junto aos amigos bêbados de Tapuia, que contemplavam as inglesas que desembarcavam no porto de Manaus, do Booth Line.