POLÍTICA, MANAUS E LARÁPIOS À SOLTA (Conto de uma Cidade Abandonada)

Em um voo tenso até Miami, com muita turbulência e um camarada candidato a político ao lado, os tripulantes vieram nos chamar a atenção algumas vezes devido aos burburinhos que estávamos causando. Meu companheiro de voo falava alto, e eu mais ainda.
Ton afirmava:
— Vou sair candidato a político. A esquerda está afundando o Brasil.
— Veja só! — eu disse — O como é curiosa a quantidade de manifestações político-marqueteiras nos últimos meses em Manaus…
Eu detesto ser interrompido e Ton sabia disso, mas ele insistia em atropelar o que eu dizia:
— Provavelmente em todo o país, meu camarada!
Retomei:
— Ton, imagino que observar demais tenha me deixado com politicopatia (se é que assim possa ser caracterizado esse trauma comum entre os cidadãos brasileiros). Já analisou como muitos outdoors, canais televisivos, jornais, revistas e outros meios de marketing têm sido tomados pelos aspirantes a sanguessuga do dinheiro público?
Ton, sem saber o que retrucar, nada disse, ao que continuei:
— Se não, faça-me o favor de ligar a TV por um breve momento, ou apenas dê uma rápida caminhada pela cidade. Isso se o lixo, os desorganizados camelôs, o trânsito caótico, a reduzida condução pública e a falta de calçadas em Manaus não saturarem o seu percurso.
— Entendo… — disse timidamente o companheiro.
Continuei, após uma pequena pausa para que Ton admirasse a aeromoça que passava entregando o lanche:
— Agora se pergunte, por que esses “nossos representantes”, eleitos por analfabetos políticos, mostram-se como heróis através de manobras marqueteiras montadas para iludir ignorantes? Certo ditado responde-nos: quem não é visto não é lembrado. Triste é ver que as manifestações de rua ocorrem somente nas vésperas das eleições.
— Sílvio, você está sendo inconveniente — disse Ton, um pouco irado com a minha colocação. — Você não precisa generalizar. Não chame todos da sociedade de ignorantes e analfabetos.
— Talvez você ache que eu esteja fazendo uma colocação inconveniente quanto aos “ignorantes” e “analfabetos políticos” — retruquei —, mas saiba que somos nós, você e eu, que temos a chave administrativa de nossa cidade em mãos. Será que somos tão negligentes a ponto de entregá-la a larápios, corruptos, vigaristas e assassinos? Temos sido sim, bastante negligentes! Basta irmos até o Congresso Nacional (pode ser em pensamento, pois assim não pagaremos a passagem aérea) para ver quem está lá nos representando. Para refrescar a sua memória, eu poderia citar nomes. Mas não acho necessário. Você é inteligente e já deve ter recordado de alguns sanguessugas que andam por lá.
Ton, contrariado com minhas objeções, fez menção de sair, como se não lembrasse estar em um voo.
— Espere! — eu disse, segurando seu braço esquerdo. — Não vá embora! Sei que um voo até Brasília é desconfortável, ainda mais quando viajamos usando os serviços de nossas companhias aéreas.
— Cale a boca, Sílvio. — ele respondeu, preocupado com a minha indiscrição. — Você procura as passagens mais baratas e quer viajar com conforto?
— Não precisa vir com poucas e boas — retruquei. — Eu só ando de classe econômica mesmo! Meu amigo Ton, creio que não precisaríamos ir tão longe para vermos alguns exemplos de sanguessugas (alguns até bem-intencionados, mas de boas intenções o inferno está cheio). Vamos falar de nossa linda Manaus. Quando digo linda, é linda mesmo, sem sarcasmo. Pois sou de lá e amo a terra manauara; linda, mas maltratada. Duvido que homens como o nosso ex-prefeito, o abelhinha, se importe com a cidade, amada e cobiçada por muitos países, mas por poucos brasileiros; pois se a amassem não jogariam seus votos no lixo.
Indo até o banheiro, Ton põe fim à conversa, e para minha surpresa, quando retorna, coloca os fones de ouvido.