JAMBEIRO E PROGRESSO

— O tempo é dono de tudo! – dizia seu Pádua, após correr os olhos baços pelo jornal e saber que a inflação no país estava à flor da pele.
Naquela época o governo era outro, o governo era: FHC, o privatizador. Um dos mais inteligentes presidentes que o Brasil já teve. E quanta burrada já fez ao que me lembro; pelos comentários de seu Pádua, FHC não acertava uma. – esse cidadão ainda vai privatizar a Petrobrás – continuava Pádua, com os seus cacoetes intelectuais.
Eu até que sinto falta dessa época. Não do FHC, mas das pirraças de crianças. Se eu pudesse voltar no tempo, voltaria; mas voltaria só pra matar a saudade dos meus Jambeiros. Ah, como esquecer as imagens que recordam a minha infância.
No quintal de minha casa tinham dois pés de jambeiros. Eram imensos! Cresci com eles, até que um dia eles tiveram que ser cortados para o progresso de nosso lar. A casa seria ampliada e não tinha mais espaço para as duas árvores que ocupavam, e davam alegria ao nosso quintal. Foi uma infância de lutas, mas que a natureza estava sempre de prontidão para proporcionar momentos de uma infância, modesta, mas feliz.
— Sim, é recordativo, memorialista. Resgata os belos momentos de minha infância, (…) Em minha casa, é claro, o sol cheirava a incenso. O reflexo batia na janela através das folhas do jambeiro. Chegava de mala e cuia com o início da manhã e só se despedia quando todos nos recolhíamos para o banho das seis. Nem quando a chuva garoava ele nos deixava por muito tempo, escondia-se de mansinho, só pra deixar a chuva regar os jambeiros.
Era uma relação apaixonante de sol e chuva, jambo e sol e, com ele, habituei-me a passar os meus momentos mais felizes.
Nas folhas escondiam-se os soldadinhos, uns insetos bem pequeninos, mestres do disfarce. Os jambeiros soltavam as flores, colorindo o nosso quintal. O seu Pádua discorria os olhos na varanda, junto com o pai, vociferando sobre as incongruências que o governo estava se impregnando. Havia, enfim, o cheiro da terra, o latido do cão, as quebras dos galhos, o canto dos pássaros, a luta com o louva-a-deus e os nossos saltos e trambolhões.
Seu Pádua não cansava, só reclamava com a bunda no banco. Era triste ver que um homem naquela estatura se limitava a discorrer os olhos pelos jornais enquanto o país exalava odores.
A culpa era do progresso, tão perto e cada vez mais longe.
Na escola eu rabiscava uma letra com o pouco que aprendia de política através do jornal de seu Pádua, que sempre era o da semana anterior:
“Até quando temos que ficar nessa exploração?
Essa terra é o meu salário e de todo cidadão
Lutamos contra a impunidade/ Pois precisamos sobreviver
Desta terra nos deixem a metade / Mas não deixam é nada pra você
Não venda a sua nação/ Ô pobre cidadão
Roubam-nos a luz do dia e não fazemos nada pra deter
A Amazônia está perdida e a culpa não dá pra esconder
Não venda a sua nação/ Ô pobre cidadão”.

Quando eu estava no topo do jambeiro tentado tirar o olho da árvore (isso mesmo, as árvores tem olhos), para que ela não crescesse tanto, ouço a conversa de Pádua com o meu pai, que acabara de voltar de mais uma tentativa de busca por emprego, mas sem sucesso – O que precisamos é de um governo socialista, só assim veremos as mudanças em nosso país.
— O que é um governo socialista? Pergunto mais tarde ao seu Pádua, que com uns resmungos tentava explicar, mas como eu não havia entendido nada me retirei. Alguns anos depois eu viria a entender, (…).
Seu Pádua jamais veria Lula e seu socialismo governar o país; morreria dias antes. Mas tenho certeza de que jamais estaria satisfeito com o resultado de um governo que caminha para o totalitarismo.
Ele dizia, e do alto dos meus Jambeiros eu ouvia, algo como: mudar o mundo, protestar contra as sujidades, ir contra o sistema, (…).
Como a maioria dos jovens idealistas, minha adolescência foi permeada por esses sutis pensamentos. Cresci inconformado, na época pelo modelo político de FHC, (talvez o pior presidente que o Brasil já teve). E como meu pai sofreu na pele, com os seus cinco filhos pra criar, naquela época de privatizações!
Caramba! Como eu achava que com o grito poderíamos mudar o mundo. Até faz uma pequena, mas superficial diferença, mas em suma, temporária.
É preciso algo a mais para fazer a diferença: nossos gritos de protestos jamais encontrarão refúgio duradouro se não formos antes de tudo pra casa e pensar o nosso país. E pensar é refletir, raciocinar, analisar e concluir pra só depois agir!
Seu Pádua fazia tudo direitinho, do pensar ao concluir, religiosamente, mas nunca agia.
A reflexão emoldura-nos caminhos. E existem caminhos que, aparentemente, são para uns seletos grupos pré-escolhidos pelo destino. E que merda de destino é esse, que nutre predileções. Às vezes demora pra entendermos que nesse quesito destino não existe. Triste seria da humanidade se ela fosse um fruto predestinado ao fracasso. Onde estaria a força motriz de nossas escolhas?
E por falar em escolhas, quem nunca foi questionado pelas suas? Uns preferem plantar milho, outros, cacau; alguns em saciar o doce da graviola e outros a acidez do cupuaçu.
Escolhemos os caminhos mais difíceis, porque nossos sonhos dependem deles.